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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Das praias perdidas

Quem limita a orla carioca ao trecho que vai do Leme ao Pontal não sabe o que está perdendo. E não falo da Prainha, nem de Grumari, mas de três praias selvagens que deixam qualquer Garota de Ipanema com uma baita inveja. Para chegar lá, só percorrendo aproximadamente meia hora de trilha tranquila, tranquila.

A subida pesada mesmo é percorrida de carro. O negócio é engatar a primeira e acreditar. No final da Praia de Guaratiba, siga pela esquerda e suba até o bar do Zequinha. Lá, pode perguntar para qualquer um – todos te mostrarão o ponto de partida com um sorriso no rosto. Muito em função das cervejinhas que um belo dia de sol proporcionam.

A trilha não tem bifurcações... não dá para se perder. No meio do caminho, uma nascente cumpre o papel de fonte de água doce para algumas famílias que aproveitam um fim de semana ensolarado para partir de mala e cuia para lá. A praia é selvagem, mas nem um pouco solitária. De qualquer forma, o camping improvisado não chega a atrapalhar o passeio.

A turma fica mesmo na Perigosa, primeira das praias, localizada aos pés da montanha chamada de Tartaruga. Lá de cima, a vista é sensacional. Desce tudo e de volta na trilha. Mais alguns minutinhos no mato, eis que surge a Praia do Meio, sabe-se lá por que a mais famosinha. Por último, nada mais nada menos que o Inferno e, quem diria, por lá é um refresco só.

Vale a pena tirar a lancheira do mofo e partir para a aventura. O passeio é para um dia inteiro, o que exige aquele pique-nique com sanduíches, bolo pronto e muita água. Na volta para casa, a única dor de cabeça é manobrar naquela rua estreeeeita lá de cima de Barra de Guaratiba. Mas aquele mesmo parceiro, ainda mais alegre com as cervejas e o churrasco no fim da tarde, com certeza fará questão de prestar auxílio ao ilustre visitante.

Foto: Robert Handasyde

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Pé na trilha

Os 93,5 mil metros quadrados do Parque Lage impressionam por apresentar a feição de uma floresta natural, com um intrincado de árvores e arbustos de categorias e dimensões variadas. Pouco se parece com o Jardim Botânico, logo abaixo, na mesma rua, com exceção das palmeiras imperiais dispostas do portão à entrada da casa estilo colonial. Essa exuberância e aparente “desordem” sempre chamaram minha atenção, mais ainda ao descobrir o principal atrativo do local: a trilha para o Cristo Redentor.

Adoro esses “programas de índio”. Calça molinha, tênis e mochila a postos, com lanterna, biscoitos, e muita (muita!) água: lá vou eu 710 metros morro acima. A ideia de aliviar um pouco os dois litros d’água na bagagem some quando lembro da primeira vez que, anos atrás, botei meus pés nessa trilha. Cheguei ao topo com língua e lábios grudados como papel de bala.

Longe de qualquer sacrifício, o início do percurso pode ser descrito como um passeio bastante agradável, que qualquer pessoa, acostumada a percorrer o trajeto cama-sofá, é capaz de fazer. A etapa praticamente plana tem direito a três quedas d’água, que não são das mais exuberantes, mas refrescam como só uma cachoeira é capaz.

Há alguns anos, assaltos afastaram as pessoas desta trilha. Dizem que alguns sem-teto chegaram a morar ali, meio acampados, pela falta de segurança no parque. Hoje, sabe-se lá por que, só há mato mesmo. De qualquer forma, uma vez que os micos que surgem ao longo do percurso não vendem suas bananas – até porque não há bananeiras na Mata Atlântica – é melhor deixar seu rico dinheirinho em casa.

Não dê pipoca aos macacos


Os pequenos animais por aqui, aliás, não querem dar, mas receber. Os bichos, acostumados a ser alimentados pelos visitantes, se aproximam e vão seguindo o grupo. E você já deve ter ouvido por aí: “Não dê pipoca aos macacos”. Nem banana, por favor. O ato é uma condenação para eles, uma vez que desaprendem a buscar seus próprios alimentos – insetos e frutas silvestres – além de passarem a se reproduzir em escala maior do que o normal.

A parte mais difícil da trilha está logo no final. Uma subida rochosa requer equilíbrio e cuidado. Alguns ganchos de escalada sugerem que ali já teve uma corda ou algo para ajudar na subida. Depois desse ponto mais alguns metros, chega-se ao fim da trilha, no trilho do trem. A recepção fica por conta de alguns santos – São Judas Tadeu, coitado, perdeu a cabeça e é escondido por biombos de madeira para não ser visto por quem vem de bonde. Esqueceram de tapá-lo também para quem vem da trilha. Além dele, Nossa Senhora de Aparecida e São Sebastião fazem as honras.

Fora dos trilhos

É preciso então seguir pela estrada de ferro, mas com cuidado. O trem passa de 15 em 15 minutos. Surge então a primeira recompensa. A vista da Lagoa, Praia do Leblon e de Ipanema. Vale a pausa, geralmente feita no teto de concreto de uma pequena casa, sem função aparente. Hora de repor as energias para seguir adiante. Dos trilhos avista-se pela primeira vez o Cristo.

Na entrada do monumento, uma decepção. Seguranças informam que ingressos (R$ 13) não são vendidos no local, somente 2,5 km estrada abaixo, onde os carros são obrigados a estacionar (R$ 2). Que ótimo! Não pensaram em quem vem de trilha. Uma saída é descer a pé pela estrada que desemboca no Cosme Velho. Ou pagar R$ 45 e pegar o bonde. Ou fazer o caminho de volta. Até porque, para baixo, todo santo ajuda.

Foto: Robert Handasyde